Um jovem de 17 anos, morador de um assentamento rural oriundo de programa de reforma agrária no município de Mirassol D’Oeste (300 km de Cuiabá), estudante de uma escola ligada ao Movimento Sem Terra (MST) e ansioso para votar, com orgulho, no presidente Jair Bolsonaro (PL).
Tais fatores foram determinantes para Guilherme Henrique Moreira Santos, aceitar o desafio de alguns amigos “esquerdistas” e tatuar nas costas com um ferro quente (carimbo de marcar gado), o número 22 do Partido Liberal que representará Bolsonaro nas eleições de outubro deste ano.
O caso inusitado foi registrado no dia 12 deste mês, um domingo, em Mirassol D’Oeste, quando o adolescente auxiliava o pai, coordenador do leilão do Hospital do Câncer de Barretos (SP), no controle e manejo de animais destinados ao leilão presencial na cidade paulistana.
O carimbo era usado para marcar os animais que recebiam vacina e passavam por todos os procedimentos exigidos pelas autoridades sanitárias para receber o GTA (Guia de Trânsito Animal) e obter aval de um médico veterinário antes do deslocamento de Mato Grosso para São Paulo.
O número 22 é relativo ao ano de 2022 para confirmar que os animais estão vacinados e aptos ao transporte para outro estado. E foi nesse contexto, de uma família de bolsonaristas, moradora do Assentamento Roseli Nunes (distante 23 km da área urbana de Mirassol D’Oeste), onde boa parte dos vizinhos são “esquerdistas”, que o rapaz saiu do discurso e fixou na pele, com ferro quente o número que representa Jair Bolsonaro, candidato à reeleição.
O caso foi divulgado primeiramente pelo site TM Notícias, de Araputanga (345 km de Cuiabá), e confirmado por FOLHAMAX numa entrevista com a mãe do jovem, através de ligação via WhatsApp. Layane Moreira, relata que o filho sempre foi meio bruto e rústico, interessado em atividades como manusear máquinas pesadas e outras tarefas do cotidiano de quem mora e trabalha na zona rural. Por causa disso, em 2021, ela e o esposo foram ao cartório e emanciparam o adolescente.
Ou seja, permitiram legalmente que o jovem ainda menor de idade fosse declarado capaz para praticar os atos da vida civil sem a tutela dos pais. Tal medida foi adotada depois que ele concluiu um curso de máquinas pesadas, mas para trabalhar operando tais equipamentos precisaria ser maior de idade.
Ele faz 18 anos em setembro deste ano e está ansioso para votar pela primeira vez. Também está concluindo o ensino médio na escola do assentamento. Guilherme e os pais não têm dúvidas de que vão votar no presidente Jair Bolsonaro. “Meu filho defende o Bolsonaro, será o primeiro voto e está decidido a votar no Bolsonaro.
Toda a família é bolsonarista, votei nele e vou votar novamente com todo amor e carinho. Tenho vários familiares que são bolsonaristas”, relata Layane Moreira, ao admitir que em seu meio de convívio social também existem várias pessoas simpáticas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Dessa forma, ela admitiu que a atitude do filho já tem sido alvo de críticas nas redes sociais. “
A gente não quis, mas aconteceu com nosso filho. Por ser uma coisa que a gente defende, o presidente, não tem como a gente falar muito. Já foi feito agora é conviver e conformar, não tem como reverter. Talvez daqui algum tempo ele queira fazer algo em cima, mas será uma decisão dele”, relatou Layane Moreira, que atua como artesã, confeccionando laços decorativos.
Ela relatou que o marido, também é eleitor do atual presidente, mas ambos não incentivaram a atitude do filho. “O pai dele disse que agora ele terá que aguentar os comentários, pois a gente mora em assentamento.
O Guilherme estuda em escola do MST e vai ter que aguentar as críticas que receber", A ideia da “tatuagem improvisada” surgiu como um desafio de amigos já que Guilherme se orgulha de ser bolsonarista e utiliza suas redes sociais (stories do Instagram e perfil no WhatsApp) para publicar assuntos relativos ao presidente.
“O Guilherme fazia o manejo do gado que iria receber o carimbo e vacina. Ai os meninos que têm posicionamento esquerdista desafiaram ele a carimbar as costas. Ele falou: pode carimbar”, comenta a mãe ao lembrar que o filho pediu a um rapaz maior de idade, que se negou.
“Ai um amigo, que na verdade é primo distante dele, meteu o carimbo, já estava marcando as vacas e aproveitou o ferro quente”, comenta a mulher. Ela garante que não se orgulha da atitude do filho, mas também não vai repreendê-lo. “Levei um susto porque nunca autorizei ele fazer tatuagem.
Tenho um casal de filhos. A gente vê que amigos da idade dele que já têm tatuagem, mas ele é meio rústico, meio machista, nunca se mostrou interessado em tatuagem, gosta de trator, máquinas pesadas, cavalo, coisa rústica”, comenta a mãe.
Ao levar Guilherme no Posto de Saúde do assentamento uma amiga de Layane que trabalha no local, pediu que compartilhasse uma foto da “tatuagem” do filho. A partir dali que a imagem passou a ser compartilhada em aplicativos de celulares. "Moro no assentamento Roseli Nunes, que veio da reforma agrária, mas a gente vê um número bem elevado de pessoas a favor do nosso presidente.
O grupo que a gente convive, é voltado para o Bolsonaro, tem também o grupo que é contra, mas a gente sabe relevar. Achei astucioso da parte dele.
Além da coragem, foi algo desafiador, é doloroso com ele, tem a cicatriz, teve a dor e vai ter que conviver”, comenta mãe.
A tatuagem marcada com ferro quente está em processo de cicatrização, recebendo os devidos cuidados e curativos. “Está descascando, está sob cuidado, cicatrizando bem, ele está usando pomada. Ele teve atendimento só por cuidado mesmo, mas não teve qualquer gravidade, foi atendido no posto de saúde do assentamento”, comenta a mãe.
A mulher garante que não repassou o caso adiante, mas a foto enviada à amiga foi compartilhada nas redes sociais. “Ele está orgulhoso e posta as mídias do presidente nos stories dele”, diz ela. Por outro lado, as críticas também estão sendo direcionadas ao jovem e também à mãe.
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“Recebi vários comentários negativos hoje falando que é falta de serviço, que deveria tatuar na testa, reprovando. Ironia pura, mas não tenho o que argumentar, não vou conseguir dizer que está certo.
Não compartilhei nada com ninguém. As pessoas que compartilham e me enviam, não incentivei, mas não vou condenar porque não posso fazer nada”, disse.


