O engenheiro agrônomo Ricardo Arioli, que é presidente da Comissão Nacional de Cereais, Fibras e Oleaginosas da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), acompanha com especial interesse o desenrolar da guerra na Ucrânia.
Estudioso do mercado internacional de alimentos, Arioli vê com espanto a disparada no preço dos fertilizantes e com preocupação as notícias de boicote econômico e exclusão da Rússia do sistema internacional de pagamentos.
Porém, dizendo-se um otimista, Arioli tenta enxergar um pouco mais à frente. Segundo ele, o conflito poderá consolidar Mato Grosso como potência mundial em comida.
"E eu acredito que isso [o momento de conflito] vai colaborar para que o Brasil e Mato Grosso se consolidem como fornecedores confiáveis de alimentos", disse em entrevista concedida direto de sua fazenda em Campo Novo do Parecis.
Confira a entrevista na íntegra:
MidiaNews - Mato Grosso compra fertilizantes da Rússia e da Ucrânia. Como ficaram os preços nesta semana?
Ricardo Arioli – Depois que a guerra começou, os preços de fertilizantes estão impraticáveis. Não há conta que fecha. Desde o início da guerra, dois fatos foram marcantes: o aumento de preço das commodities e por outro lado subiu o preço dos fertilizantes.
O cloreto de potássio, por exemplo, estava US$ 440 a tonelada na safra 21/22. Agora, depois que começou da guerra, foi para US$ 1.200.
Porque Rússia, Ucrânia e Bielorrúsia são grandes exportadores de fósforo e potássio, principalmente para o Brasil, em que 93% do nosso potássio é importado. E destes, 40% vêm da Rússia.
Nesse momento, nem mesmo a alta da soja permite que você tenha uma relação favorável. Não é hora de comprar fertilizantes. Temos que esperar para ver o que vai acontecer.
MidiaNews - A ministra Tereza Cristina afirmou que o Brasil tem estoques de fertilizantes suficientes até para outubro. A gente pode acreditar nesse discurso?
Ricardo Arioli – Parece que sim. Eu não me atreveria a dizer que ela falou uma mentira, porque muitos produtores já tinham comprado adubo. Ainda tem alguns que não compraram e vão ter que se virar.
Outra preocupação é a questão das entregas. Normalmente, as empresas que vendem adubo no Brasil são multinacionais. Então a gente espera que elas garantam as vendas que foram realizadas e consigam entregar. Acredito que para próxima safra de soja a maior parte dos produtores terá o adubo necessário. O problema talvez ocorra na próxima safra de milho, que aí sim, muitas pessoas ainda não fizeram negócio.
MidiaNews - Acredita que por causa dos boicotes e da dificuldade de negociação, corremos o risco de sofrer escassez de fertilizantes a próxima safra?
Ricardo Arioli – Há um risco e temos que considerá-lo. Mas é muita especulação. Agora mesmo, o presidente Jair Bolsonaro esteve na Rússia e veio de lá com a notícia de que o país tinha dado dado uma garantia ao Brasil de que iria fornecer os fertilizantes. O Brasil, no início do conflito, se posicionou neutro. E sobre esses boicotes, ainda não se sabe o tamanho que eles irão atingir e é uma preocupação. Nós também ficamos fora da lista de países considerados ameaças [para a Rússia], e isso é uma boa notícia para nós.
Só que tem outras questões. Existe um sistema de pagamento de compras internacionais, que é o Swift. Ele é usado pelos bancos para mandar dinheiro do comprador para o vendedor. E um dos boicotes é de que a Rússia não pode mais usar esse sistema. Então, a forma de pagamento da Rússia é uma incógnita, caso nós importemos adubo de lá. Deve ter outro jeito, e eu não sei qual, mas é um complicador.
A outra questão são os navios. O frete marítimo subiu e já há grandes empresas que já avisaram que não vão colocar seus navios para puxar produto russo por conta do boicote, e isso é uma situação complicadora.
Ou seja: se a Rússia vender, talvez não conseguiremos pagar. Se conseguirmos pagar, como esse material será enviado? Quem traz?
MidiaNews - O senhor falou recentemente que países que anunciaram boicote à Rússia vão seguir comprando gás e petróleo russos. Defende que o Brasil também deveria furar o boicote e seguir comprando fertilizante russo?
Ricardo Arioli – A minha preocupação é essa questão da mensagem. O boicote tem uma espécie de “eu quero te punir, mas não muito, porque eu preciso do seu petróleo e do seu gás”. Parece que essa semana piorou porque os Estado Unidos compraram um pouquinho de petróleo da Rússia e disseram que não vão mais comprar. A própria Rússia pode contra-atacar e resolver parar de exportar petróleo. E assim atingir a economia dos outros países também porque o petróleo vai subir.
Não considero que a importação de adubo seja um furo no boicote, até porque ninguém falou em fertilizantes até agora. Está se falando em petróleo. Até porque não é só para o Brasil que a Rússia exporta fertilizante.
E aí tem um componente que deve ser avaliado, que é a produção de alimento.
MidiaNews – Isso pode afetar a produção de alimentos, não é?
Ricardo Arioli – Ninguém quer a escassez de alimentos no Mundo. Isso seria uma piora para todo mundo. Estamos nos recuperando de uma pandemia. A economia está começando a se recuperar, aí vem a guerra e aí não vamos ter comida? E isso em meio à inflação dos alimentos.
No Brasil subiu o preço do milho e da soja, e isso pode refletir no frango, suínos, ovos, leite. Então, nós já vamos ter um problema de inflação de alimentos. Se faltar comida, aí fica um cenário pior. Estrategicamente para o Mundo seria interessante não colocar os fertilizantes como boicote. Todo mundo importa fertilizante, não só o Brasil.
MidiaNews - O custo da produção já estava alto antes da guerra. O que podemos esperar para a próxima safra em termos de custo?
Ricardo Arioli – A gente achou que o custo de produção dessa safra seria o maior da história, mas talvez o próximo seja maior ainda pelo que está se apresentando.
Agora, o que temos que analisar é: preço alto é remédio para preço alto. Porque senão daqui a pouco a turma para de consumir por falta de dinheiro. A tendência, então, é que os preços caiam, porque senão não vende. E não adianta ter preço bom se não há venda.
Existe também um estímulo para o aumento de produção, que é o que o produtor vai tentar fazer. Ainda é cedo para dizer quanto vai subir, mas vai subir.
MidiaNews - Com o petróleo nas alturas, abre-se uma janela de oportunidade para etanol de milho e o biodiesel. Esse setor em Mato Grosso poderá ter ganho?
Ricardo Arioli – Com essa mudança de cenário com a guerra, e o preço do petróleo, temos que rever essa questão estrategicamente. Por exemplo, neste ano era para nós termos 14% da mistura de biodiesel no diesel. No final do ano passado, o Governo do brasileiro decidiu voltar para 10%. Como o principal produto para fazer o biodiesel é a soja, e a soja está cara, ele deu um passo atrás, com medo de aumentar o diesel na bomba. Mas agora, é preciso rever isso.
Por que eu digo isso? Porque quando você promove uma indústria, não tem só o ganho no preço final do diesel, você tem ganhos como empregos que a indústria gera. A indústria já está pronta aqui. Mato Grosso é o segundo maior produtor de biodiesel do Brasil e maior produtor de soja.
Você também agrega valor ao produto, porque não está exportando commodities, e sim farelo. Então se o chinês vier no Brasil comprar grãos, a gente vai dizer: “Nós temos só farelo, um pouco mais caro, mas é o que temos para vender”.
Isso vai gerar emprego e impostos. Quando você produz o farelo e óleo a partir da soja, você paga imposto. Quando você exporta só o grão, você é isento. Então, além de tudo teria o aumento de arrecadação para o Estado. Eu só vejo vantagem nisso.
Entendo a preocupação do Governo com o preço no produto final se aumentasse o percentual de mistura, mas agora o preço do barril do petróleo está chegando próximo de US$ 140, e antes era US$ 90.
Então, mesmo que a soja tenha aumentado, tem que fazer as contas para ver se não é viável. É estratégico. Porque se isso acontecesse, a Petrobras exportaria menos, tem a questão das emissões de gás carbônico que diminuiriam.
MidiaNews – E é um momento interessante para produção de milho no Estado?
Ricardo Arioli – Com certeza! O etanol de milho em Mato Grosso é uma revolução econômica, mas também uma revolução de sustentabilidade. Nós produzimos um biocombustível, industrializamos o milho, e oferecemos no mercado o DDG, que é um produto que se usa na ração do frango, porco e boi. E a ração pode baratear e também o preço da carne.
MidiaNews – E pode haver um aumento na produção de milho no Estado?
Ricardo Arioli – A não ser que aconteça alguma coisa climática no Estado, a tendência é aumentar a produção todos os anos, porque o preço está muito remunerador. O etanol de milho está remunerando muito bem o mercado interno do Estado.
MidiaNews - Como tem se comportado os preços das commodities mato-grossenses em geral, após o início da guerra?
Ricardo Arioli – Aumentou soja, milho, gado. Mas isso é um lado. É preciso mostrar o outro lado é que o custo de produção. Por exemplo, o gado confinado não se viabiliza no preço que está o milho. Tem que olhar os dois lados.
MidiaNews - Que consequências haverá para o agro mato-grossense com essa guerra, caso ela perdure por muito tempo?
Ricardo Arioli – Eu costumo ser otimista. E acredito que o Brasil pode se fortalecer ainda mais como um fornecedor de alimentos confiável para Mundo, como aconteceu durante a pandemia. Porque nós temos todas as condições de aumentar a produção sem desmatar nada.
Apesar da gente estar em um momento de incerteza, com o preço do adubo, defensivos, frete... Mas o milho já está plantado e provavelmente vai ser uma safra maior que a do ano passado. A soja no estado também teve uma boa safra. E eu acredito que isso [momento de conflito] vai colaborar para que o Brasil e Mato Grosso se consolidem como fornecedores confiáveis de alimentos. E é essa oportunidade que temos.
MidiaNews - Muitos têm falado que um dos mecanismos para o Brasil ter autossuficiência em fertilizante seria a liberação da exploração mineral em áreas indígenas. Como o senhor vê a proposta?
Ricardo Arioli – É uma boa proposta. Não tem porque não explorar em reservas indígenas, desde que feito com todo cuidado ambiental. Hoje, a exploração de minerais tem todo um estudo sobre impactos, e por ai vai. É natural a exploração. É ruim para todo mundo - e não só para o produtor - quando nós precisamos de uma coisa que tem aqui, mas importamos.
Se pudéssemos explorar potássio, por exemplo, pela metade do preço que importamos hoje, quem ganha é o consumidor brasileiro. Então, eu vejo isso com bons olhos. Evidente com todas as preocupações ambientais que tem que ser tomadas.
Mas isso é uma coisa que demora. Imagina montar uma mina em um lugar remoto, que não tem estrada, tampouco energia elétrica. Não tem estrutura para o pessoal que vai trabalhar na mina morar. E não é uma coisa que vamos resolver para a próxima safra. Há muitas jazidas de fertilizantes, o produto primário tem que passar por tratamento químico e físico...
MidiaNews – E há também a questão das licenças ambientais...
Ricardo Arioli - Eu nem ia falar isso (risos). Digamos que tem uma mina que seja dentro de uma reserva indígena que tem uma estrutura próxima, e não precisa de muito investimento. Vejo um horizonte mínimo de uns cinco anos para começar a ter volume suficiente para atender a demanda brasileira. Isso é no mínimo.
MidiaNews – Acabaríamos com a dependência externa de fertilizantes?
Ricardo Arioli – Não, muito difícil. Eu não sei te dizer em quanto tempo. Penso que cinco a 10 anos. Mas veja que essa conversa de autossuficiência em fertilizantes começou no século passado.
Em 2007, o então ministro da agricultura Reinhold Stephanes começou com essa história de começar a produzir fertilizantes aqui. E isso lá se vão quantos anos? Quinze. E não aconteceu nada nesse meio tempo. As jazidas são as mesmas que existiam na época, o licenciamento ainda não andou, a questão da discussão sobre exploração na reserva indígena não andou, e eu acho difícil porque tem muita gente que é contra.
MidiaNews – Mas a exploração em reservas indígenas não pode prejudicar a imagem do Brasil junto aos compradores?
Ricardo Arioli – Não. Eu tenho uma fazenda em Campo Novo e tive a oportunidade de conversar com três mulheres indígenas que estavam no Sindicato Rural apresentando um projeto de parceria com o sindicato porque elas estavam plantando soja. E o relato delas é emocionante, porque elas argumentaram que não iriam perder a sua cultura, e sim fortalecer. Que iria criar projetos sociais nas aldeias, criar frangos, produzir ovos, plantar hortaliças, de maneira que todos se beneficiem do projeto, não só quem planta.
MidiaNews - A propósito, o Brasil tem encontrado dificuldades no mercado externo em razão das notícias que saem no exterior sobre desmatamento e sobre a política ambiental do governo Bolsonaro?
Ricardo Arioli – Isso tudo é falta de informação. Os produtos mais visados em termos de acusação contra o desmatamento são a soja e o boi. Não há soja na Amazônia, nem tem estrutura para ter. E outra coisa: você abrir uma área de floresta para plantar soja é impensável hoje em dia, porque é muito caro.
Acompanhe o nosso trabalho também nas redes sociais;
Siga a nossa página do Colidernews no Facebook.
Acompanhe nossas matérias no Grupo de WhatsApp.
Saiba tudo do nosso site na página oficial do Twitter.
Siga o Colidernews também no Instagram.
Faça parte do nosso grupo de notícias no Telegram.
Junte-se a nós também no Grupo do Colidernews no Signal.
Segundo o Imea, nós temos 12 milhões de hectares de pastagens que poderiam ser convertidas em lavoura em Mato Grosso. E Mato Grosso planta em 11 milhões de hectares. Então poderíamos dobrar a produção em cima de áreas que já são pasto. Mas esse argumento não chega lá fora.


