Enquanto eleva investimentos em defesa ao maior patamar desde o último século diante do crescimento das instabilidades globais, o Japão está desenvolvendo uma nova classe de grandes navios de guerra que deverá se tornar o maior lançador de mísseis da Força Marítima de Autodefesa japonesa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
O projeto conhecido como ASEV (Aegis System Equipped Vessel), ou Embarcação Equipada com Sistema Aegis, é um navio de guerra de 190 metros de comprimento e 25 e largura, com deslocamento de até 14.000 toneladas em carga total, e 128 células verticais para lançamento de mísseis, em comparação às 96 células dos atuais destróieres japoneses da Classe Maya.
Mas o diferencial estratégico da embarcação não está somente no tamanho e na maior capacidade bélica: o navio será equipado com o sistema de combate Aegis, moderno sistema de armas naval integrado e automatizado desenvolvido principalmente para defesa aérea e antimíssil, incluindo a capacidade de interceptar mísseis balísticos.
A arquitetura do ASEV nasceu como uma versão móvel de uma instalação terrestre de defesa antimíssil, após o Japão cancelar, em 2020, o projeto Aegis Ashore, que previa a construção de uma rede de estações de defesa costeira dotadas do sistema de defesa Aegis.
Além de permitir que um navio detecte, acompanhe, classifique e engaje múltiplas ameaças aéreas e marítimas com muito mais rapidez, o Japão prevê que o Aegis permitirá reduzir o número de tripulantes do navio para cerca de 240, em comparação a cruzadores como os da Classe Ticonderoga, dos Estados Unidos, que operam com mais de 300 marinheiros.
O objetivo principal de Tóquio é reforçar a defesa contra mísseis balísticos norte-coreanos, além de ampliar a capacidade de monitoramento e defesa aérea diante do crescimento das capacidades militares chinesas e russas.
O primeiro navio ASEV japonês teve sua quilha assentada em julho de 2025, no estaleiro da Mitsubishi Heavy Industries, em Nagasaki, e a segunda embarcação teve a construção iniciada em fevereiro de 2026, no estaleiro Japan Marine United, em Yokohama. As entradas em serviço devem acontecer em 2028 e 2029, respectivamente.

ASEV será um dos maiores navios de guerra do mundo
O ASEV será um dos maiores navios de combate com mísseis do mundo e deverá receber a classificação japonesa de cruzador de mísseis guiados (CG). Na Força Marítima de Autodefesa do Japão, as novas embarcações serão menores apenas do que os destróieres porta-helicópteros da Classe Izumo, que foram convertidos em porta-aviões diante das novas necessidades de defesa do país.
O JS Izumo (DDH-183) e o JS Kaga (DDH-184) entraram em serviço em 2015 e 2017. Com deslocamento de até 27 mil toneladas e 248 metros, o foco dessas embarcações passou a ser operar os caças furtivos Lockheed Martin F-35B Lightning II (de decolagem curta e pouso vertical – STOVL) adquiridos pelo Japão, além de helicópteros.
Os navios da Classe Izumo não carregam mísseis de ataque (como mísseis de cruzeiro ou antinavio de longo alcance), projetados para depender inteiramente da proteção de outros navios de escolta.
Já o cruzador ASEV vai superar os destróieres de mísseis guiados japoneses da Classe Maya de 170 metros e 96 células de lançamento vertical, atualmente sobrecarregados na defesa costeira, e que poerão ser liberados para outras missões.
A dimensão maior da embarcação é necessária para acomodar um radar de grande capacidade, 128 células de lançamento vertical, sistemas de comando e controle e instalações que permitam permanecer longos períodos no mar.
Quando o projeto foi concebido, recebeu dimensões maiores do que a versão final, ultrapassando os 200 metros, e foi comparado até ao encouraçado japonês Yamato da Segunda Guerra Mundial, o maior e mais pesado navio de guerra de superfície da história, com 263 metros e capacidade de carga de até 72 mil toneladas.

Radar é o grande diferencial do sistema Aegis
Os cruzadores japoneses ASEV vão integrar o radar AN/SPY-7 da Lockheed Martin, originalmente comprado para o sistema costeiro Aegis Ashore. É um radar AESA (Active Electronically Scanned Array ou Matriz Ativa de Varredura Eletrônica) de painel fixo, com quatro faces de antena, cada uma com cerca de 4,3 metros de altura.
Um radar mecânico gira uma antena, e um radar PESA (passivo) tem um único transmissor que alimenta muitos elementos. Já no sistema AESA, o painel é composto por centenas ou milhares de módulos de transmissão/recepção, cada um com seu próprio amplificador e controle de fase.
Isso traz vantagens como a varredura eletrônica quase instantânea, com o feixe de radar direcionado sem partes móveis, em microssegundos. No sistema, o mesmo radar busca, rastreia, guia mísseis e faz guerra eletrônica, dividindo o tempo ou até formando vários feixes ao mesmo tempo.
Antenas do porte do sistema adquirido pelo Japão exigem mastro alto e robusto, grande reserva de energia e refrigeração, e boa estabilidade do casco. Isso explica boa parte da escolha por um navio muito maior que os destroieres anteriores.
O sistema Aegis também utiliza inteligência artificial (IA) para proporcionar melhorias críticas nas capacidades focadas na missão, como consciência situacional, tomada de decisões e tempo de reação.
Defesa contra mísseis coreanos e chineses
O governo japonês tem elevado os gastos em defessa, descrevendo o ambiente de segurança global e da região do Indo-Pacífico como cada vez mais grave. Tóquio avança para gradualmente para cumprir a meta de destinar 2% do PIB a despesas de defesa, algo sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial.
O governo japonês aponta a ameaça de avanço da China como o “maior desafio estratégico” sem precedentes para o Japão. Também cita a Coreia do Norte e a Rússia, e destaca a crescente cooperação entre esses atores.
A Coreia do Norte tem ampliado o lançamento de mísseis balísticos, tendo testado ao menos 52 mísseis entre 2023 e 2025, incluindo mísseis de classe ICBM e mísseis com trajetórias irregulares. O Japão cita mísseis descritos pela Coreia do Norte como “hipersônicos” e mísseis de curto alcance que voam em baixa altitude, justamente para tentar penetrar nos sistemas de defesa antimíssil.
No caso de Pequim, também preocupam os mísseis balísticos e de cruzeiro antinavio e de alcance intermediário, a grande quantidade de mísseis e as ações conjuntas com a Rússia, como voos conjuntos de bombardeiros e navegações navais perto do Japão.
Este cenário ajuda a explicar a escolha do cruzador ASEV com radar moderno e 128 células: mais sensibilidade e capacidade de rastrear muitos alvos, e mais mísseis em grande quantidade disponíveis para responder às ameaças.
A imagem oficial do ASEV divulgada pelo governo japonês mostra o navio interceptando ao mesmo tempo um míssil de cruzeiro rasante, dois veículos de planeio hipersônicos (ou ogivas balísticas em reentrada) e um enxame de drones.
O conceito, portanto, é de uma plataforma capaz de responder simultâneamente a diferentes tipos de ameaças de maneira integrada e eficaz.


