Quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O que os alimentos ultraprocessados fazem com o nosso corpo

O impacto do consumo frequente vai muito além do ganho de peso.

O que os alimentos ultraprocessados fazem com o nosso corpo
Foto: Arquivo Colíder News
Os alimentos ultraprocessados são produtos industrializados formulados com ingredientes artificiais, aditivos e baixo valor nutricional.


O consumo frequente está associado a obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, inflamação crônica, disbiose intestinal e piora da saúde mental.

Apesar de práticos, esses alimentos desequilibram o organismo, interferem nos hormônios da fome e da saciedade e aumentam o risco de doenças crônicas não transmissíveis.

Alimentos ultraprocessados e sua classificação
De acordo com a classificação NOVA, desenvolvida pela Universidade de São Paulo (USP) e adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), os alimentos são divididos em quatro grupos conforme o grau de processamento:

in natura ou minimamente processados: frutas, legumes, grãos, ovos, carnes, leite e cereais integrais.
processados culinários: óleos, manteiga, açúcar e sal, usados como ingredientes em preparações caseiras.
processados: alimentos que passam por conservação simples, como pães, queijos, conservas e compotas.
ultraprocessados: produtos industrializados prontos para consumo, ricos em aditivos químicos e formulações artificiais.
Os ultraprocessados contêm ingredientes que não são usados em cozinhas domésticas, como corantes, aromatizantes, emulsificantes, adoçantes, realçadores de sabor e conservantes, e são feitos para serem hiperpalatáveis, estimulando o consumo excessivo.

Exemplos de alimentos ultraprocessados
refrigerantes, sucos de caixinha e bebidas energéticas;
bolachas recheadas e salgadinhos de pacote;
pães de forma industrializados e embutidos (presunto, salsicha, peito de peru);
fast food, lasanhas congeladas e macarrão instantâneo;
cereais matinais açucarados;
barrinhas de cereal, iogurtes “de sabor” e produtos light ou diet artificiais.
Esses produtos passam por vários estágios de processamento químico e físico, perdendo fibras, vitaminas e antioxidantes naturais e recebendo em troca substâncias que mascaram o sabor artificial e prolongam o prazo de validade.

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O que os ultraprocessados causam no organismo
O impacto do consumo frequente vai muito além do ganho de peso.

Eles alteram mecanismos metabólicos, hormonais e inflamatórios, afetando praticamente todos os sistemas do corpo.

1. Desequilíbrio hormonal e aumento do apetite
Os ultraprocessados são ricos em açúcares simples e gorduras saturadas, o que provoca picos de glicose e de insulina no sangue.

Essas flutuações reduzem a sensibilidade do organismo à insulina e aumentam o risco de diabetes tipo 2.

Além disso, esses alimentos interferem nos hormônios da saciedade (leptina e grelina), fazendo com que o corpo sinta fome mesmo após comer.

O resultado é o aumento progressivo da ingestão calórica e a tendência à obesidade.

2. Inflamação crônica e estresse oxidativo
A alta ingestão de aditivos, gorduras trans e açúcares refinados provoca inflamação sistêmica de baixo grau, um estado silencioso que está por trás de várias doenças crônicas, como:

aterosclerose e doenças cardiovasculares;
resistência à insulina;
síndrome metabólica;
cânceres relacionados ao metabolismo inflamatório.
Essa inflamação também está ligada à liberação de radicais livres, que danificam células e aceleram o envelhecimento.

3. Alterações no intestino (disbiose intestinal)
O intestino é um dos órgãos mais sensíveis ao efeito dos ultraprocessados.

A falta de fibras e o excesso de aditivos artificiais desequilibram a microbiota intestinal, reduzindo as bactérias benéficas e favorecendo espécies inflamatórias.

Esse desequilíbrio, chamado disbiose, afeta a digestão, a imunidade e até o humor, já que o intestino produz neurotransmissores como a serotonina, relacionados ao bem-estar emocional.

4. Aumento do risco cardiovascular
O consumo frequente de produtos ricos em gorduras saturadas, sódio e açúcares adicionados está diretamente associado à hipertensão arterial, dislipidemia e doenças do coração.

Esses alimentos elevam o colesterol LDL (“ruim”) e reduzem o HDL (“bom”), favorecendo o acúmulo de placas nas artérias.

Estudos recentes publicados no BMJ e no Journal of the American College of Cardiology indicam que cada aumento de 10% no consumo calórico proveniente de ultraprocessados eleva em até 12% o risco de morte por doenças cardiovasculares.

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5. Efeitos sobre o cérebro e a saúde mental
Os ultraprocessados também influenciam a saúde emocional e cognitiva.

Dietas pobres em nutrientes e ricas em açúcares refinados estão associadas a maior risco de depressão, ansiedade e declínio cognitivo.

Além disso, os aditivos e conservantes podem alterar a função dos neurotransmissores, contribuindo para distúrbios de humor e compulsão alimentar.

6. Comprometimento da saciedade e do comportamento alimentar
Por serem altamente palatáveis e de digestão rápida, esses alimentos não promovem saciedade duradoura.

O cérebro responde com liberação de dopamina, o neurotransmissor do prazer, de forma semelhante à observada em respostas de recompensa, criando um ciclo de consumo repetitivo e compulsivo.

Alimentos ultraprocessados e doenças crônicas não transmissíveis (DCNT)
As DCNT, como diabetes, obesidade, câncer, doenças cardiovasculares e respiratórias crônicas, são responsáveis por cerca de 74% das mortes no Brasil, segundo o Ministério da Saúde.

Entre os principais fatores de risco, destaca-se o padrão alimentar ocidental ultraprocessado.

Esses produtos oferecem muito calor e pouca nutrição, o que leva a deficiências de vitaminas, minerais e fibras essenciais.

Com o tempo, isso fragiliza o sistema imunológico e favorece doenças metabólicas e degenerativas.

Como reduzir o consumo de ultraprocessados
Mudar hábitos alimentares não exige radicalismo, mas consciência e planejamento.

As seguintes estratégias são eficazes:

dar preferência a alimentos in natura e preparações caseiras;

ler os rótulos: quanto mais ingredientes e nomes desconhecidos, maior o grau de processamento;
reduzir o consumo de refrigerantes, bolachas e embutidos;

preparar refeições com ingredientes simples: arroz, feijão, verduras, frutas e proteínas frescas;
planejar as compras para evitar produtos prontos e processados por conveniência;
hidratar-se adequadamente: substitua bebidas industrializadas por água ou sucos naturais.
Adotar uma alimentação baseada em produtos frescos e minimamente processados é uma das formas mais eficazes de prevenir doenças e preservar a saúde física e mental.

O papel da SPDM na promoção da alimentação saudável
A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) atua na gestão de unidades públicas de saúde em parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS), promovendo educação alimentar, orientação nutricional e programas de prevenção de doenças crônicas.

As ações incluem atividades com equipes multiprofissionais e incentivo à alimentação equilibrada, acessível e culturalmente adequada, reforçando o compromisso com o cuidado integral à saúde.

Conclusão
Os alimentos ultraprocessados representam um desafio crescente à saúde pública.

Embora práticos, seu consumo contínuo interfere profundamente na regulação metabólica e hormonal, aumenta o risco de doenças crônicas e compromete o bem-estar físico e mental.

Optar por uma alimentação natural e equilibrada é um investimento em longevidade, disposição e qualidade de vida.

A mudança de hábitos começa em pequenas escolhas diárias e cada refeição é uma oportunidade de cuidar do corpo e da mente.
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