Sábado, 3 de outubro de 2026

Sem dinheiro para pagar aluguel, cuiabana decide morar em cima de árvore em praça no Porto

Para fazer a cama improvisada, Carla trançou fios de plástico entre os galhos.

Sem dinheiro para pagar aluguel, cuiabana decide morar em cima de árvore em praça no Porto
Foto: Arquivo Colíder News

Desde que deixou o emprego na indústria, há dois meses, e se viu sem dinheiro para pagar o aluguel, a cuiabana Carla Leal, de 37 anos, está morando em cima de uma árvore na praça Major João Bueno, no bairro Porto, em Cuiabá. Para fazer a cama improvisada, Carla trançou fios de plástico entre os galhos.


A mulher diz que não há perigo em cair do tronco que virou moradia, já que apertou bem os fios. Ela chegou a morar de alguel no bairro Pedra 90, enquanto tinha salário para pagar.

Nos últimos anos, Carla conta que começou a ficar difícil garantir o dinheiro necessário. "Sempre trabalhei, sempre fui uma boa funcionária. Trabalhei em diversas áreas, já servi o ex-governador Silval Barbosa e o Blairo Maggi.

Mas sempre foi muito difícil para mim ficar em um emprego", conta. A dificuldade, de acordo com ela, é consequência do diagnóstico de depressão e bipolaridade que a fazem ter episódios de surto.

A mulher explica que chega a se sentir presa por conta das doenças mentais. "Do mesmo jeito que tenho uma metade presa, aquela prisão da minha saúde mental que não é boa, tenho outra metade que quer liberdade.

Por mais que esteja passando dificuldades, a minha metade que se sente livre, não me deixa esmorecer ou ficar triste. Não desanimo perante aos problemas". 

Carla tem dois filhos, de 19 e 13 anos. Ela explica que sente que os sintomas depressivos e bipolares começaram após a primeira gravidez. "Depois que tive minha menina, fiquei muito tempo dentro de casa.

Acho que no geral todos querem sair para distrair no final de semana. Eu não, ficava dentro de casa. Adoeci. Consigo lidar com minha doença, viver com ela". Histórias sobre casas em árvores A mulher conta que, há quatro anos, lendo um livro de orações de São Francisco de Assis, a imagem de uma casa construída dentro do tronco da árvore ficou marcada em sua imaginação.

"Em algumas das passagens das orações tinham desenhos antigos de pessoas morando em árvores. Não em cima como eu, mas tinham troncos grossos e faziam a portinha.

A oração explicava sobre alegria, reunir as crianças. Quando vi aquilo achei legal". Carla nunca havia ficado em situação de rua e, quando decidiu subir na árvore que hoje é sua casa, estava buscando um lugar para descansar. 

Exausta de caminhar, ela sabia que precisava de uma lugar dormir, mas queria um local seguro. Apesar das dificuldades que já enfrentou na vida, a mulher não fala de sua situação atual com pesar.

"Estou bem, em paz e feliz. Privações vou encontrar em qualquer lugar, não adianta. Obstáculos são naturais na vida. Estando aqui, num apartamento de 20 andares ou em uma casa melhor, vou ter meus obstáculos.

A diferença daqui é que não tenho preocupação com contas".

Dinheiro curto 


Para Carla, nada nunca foi fácil. Ela desabafa mantendo o sorriso no rosto. Todo dia 30, data que costuma ser vencimento de contas, ela se preocupava se o dinheiro daria para pagar tudo o que devia. De cima do tronco de uma das árvores da praça Major João Bueno, a mulher não tem essa preocupação.

Ela afirma que a vida não deveria ser só trabalhar para pagar contas. "Sabia que ia chegar boleto de água, IPTU, energia, teria que comprar gás. Aqui chego e durmo em paz, acordo em paz. Sem obrigação de pagar alguma coisa.

Quanto maior o desejo da gente, maior a luta vai ser. Já passei por tudo isso". Para conseguir tomar banho, Carla usa uma torneira da praça. A falta de privacidade as vezes a impede de trocar de roupa com tranquilidade, mesmo estendendo uma lona de plástico na casa que montou na árvore.

Em um momento mais sério da conversa, Carla afirma que gostaria de estar morando com a mãe, que vive no bairro Pedra 90. No entanto, a relação entre as duas está abalada. "Tinha surto dentro da casa dela, ela não achava correto. Ela não entendeu meu problema. Fui ficar sozinha.

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Dentro de mim sempre quis estar com ela, é o meu desejo. Nem eu gosto [quando tem crises]". "Ontem meu ex-namorado veio me acompanhar. O Uber parou ali atrás, falei para ele olhar para cima e ver onde eu morava", conta em meio a risadas antes de afirmar que não se sente sozinha na praça, já que sempre aparece alguém para conversar com ela".

Atualmente, a mulher explica que aceita fazer diárias de limpeza e garante ser boa em ajudar com mudanças. Carla também aceita doações de roupas, sapatos e produtos de higiene

Fonte: Bruna Barbosa l Olhar Direto

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