Quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Viagem a Londres com filho, eleição de procuradores e ‘amizade’: as conversas de Vorcaro sobre Gonet

Em mensagens ao banqueiro, o advogado diz que “Gonet é firme” e que “amizade é tudo”, ao relatar tratativas atribuídas ao PGR

Viagem a Londres com filho, eleição de procuradores e ‘amizade’: as conversas de Vorcaro sobre Gonet

A análise feita pela Polícia Federal (PF) no celular do empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, identificou registros que apontam contatos indiretos entre ele e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. 

Os registros aparecem em conversas de Vorcaro com o advogado Ciro Soares, que encaminhava ao empresário mensagens atribuídas ao procurador-geral e relatava encontros e tratativas com ele.

Em 14 de abril de 2024, o advogado enviou as mensagens “Gonet é firme” e “amizade é tudo” ao relatar que havia pedido ao procurador-geral que interferisse na disputa pela presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais (CNPG). Na ocasião, Jarbas Soares Júnior, então procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, foi eleito para o cargo.

Em seguida, Ciro encaminhou a Vorcaro uma mensagem de um interlocutor chamado “Jarbas”, na qual agradece a “Georges” por um “gesto grandioso”, cita a “presença mais próxima do PGR Dr. Gonet” e menciona a “sabedoria mineira” – veja abaixo.

Na sequência, o advogado enviou um áudio no qual relatou a suposta conversa que teve com Gonet sobre a disputa pelo comando do CNPG. Em seguida, o ex-dono do Master questionou: “O cara largou?”. Ciro respondeu que sim:

“Cara, eu pedi o Gonet ontem, ele me ligou falar [sic] um assunto, aí eu falei, Gonet, pede o cara para tirar a candidatura, pede o cara que o cara vai tomar uma porrada arretada. Aí o Gonet me ligou ontem à noite e falou: Ciro, acabei de ligar para ele, ele vai desistir.”

Três dias depois, Jarbas Soares Júnior foi eleito presidente do conselho por aclamação. A eleição ficou sem disputa após a desistência do procurador-geral de Justiça do Distrito Federal, Georges Seigneur. Segundo registro oficial do Ministério Público, Seigneur retirou a candidatura em nome da “unidade do colegiado”.

A articulação de Ciro foi considerada “top demais” por Daniel Vorcaro. Atualmente, Jarbas é filiado ao PSB e é candidato a vice na chapa encabeçada por Patrus Ananias (PT) ao governo de Minas nas eleições deste ano.

sigilo dos autos foi retirado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira (1º). O laudo que cita também o ministro Alexandre Moraes é fruto da Operação Compliance Zero, que apura fraudes do banco Master. 

Veja a mensagem de Jarbas na íntegra:

“Querido amigo Georges, queridas Luciana e Elaine, estimado PGR Dr. Gonet, caros Colegas Procuradores Gerais, bom dia!

Recebo com enorme satisfação e alegria o gesto grandioso do colega e amigo Georges, que sempre esteve solícito a todos nós, nas horas mais difíceis e estratégicas. O MPDFT tem nos dado grandes nomes.

A ele a minha gratidão e reconhecimento. Deixarei as palavras mais devidas para quarta-feira.

Saiba que terão um presidente incansável nestes sete meses de presidência.

Recebo também todo apoio dos PGJs, que tive, como um ato de generosidade a um insistente candidato, mas também como um reconhecimento aos meus 35 anos de dedicação à nossa Instituição, à qual sempre fui um leal soldado.

Trabalharemos juntos no colegiado, agora prestigiadíssimo com a presença mais próxima do PGR Dr. Gonet. Ele trouxe luz e esperanças ao MP brasileiro.

Agradeço ao Presidente César e a cada PGJ, ao PGR e ao PGT.

A sabedoria mineira ensina que devemos sempre nos apegar ao que nos une, não ao que nos separa. E o que mais nos une é o presente e o futuro da Instituição. Ao MP todos as nossas forças.

Avante!” 

Foto e chamadas

Quase um ano depois, em 15 de março de 2025, Ciro enviou a Vorcaro uma foto em que aparece ao lado de Paulo Gonet. Na sequência, escreveu “Liga aqui” e “Ele quer falar com vc”. A partir das 14h23, foram registradas quatro videochamadas.

Cerca de 15 dias depois, em 28 de março de 2025, o advogado encaminhou aos ex-banqueiro mensagens atribuídas a Gonet: “Que bom! Estou na torcida por vocês!” e “Já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma”.

Ciro também afirmou que Gonet havia pedido o envio das mensagens. “Ele lhe adora”, disse o advogado, acrescentando que o PGR viajaria com eles para Londres. Em seguida, encaminhou uma mensagem atribuída a Gonet: “Oba!!! Tomara que tenha charuto e macalan!”.

No dia seguinte, Ciro enviou outro print com a frase “Você é uma máquina” e escreveu: “Gonet mandou”. Um dia após isso, o advogado de Vorcaro disse “Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres”. O empresário respondeu: “Obvio ne”.

Em 11 de abril, uma funcionária de Vorcaro perguntou quais convidados estavam autorizados a viajar a Londres com despesas pagas pelo grupo. Vorcaro descartou parte da lista e aprovou dois nomes, “Pedro e ciro ok”.

Segundo a PF, a referência era a Pedro Gonet, filho do procurador-geral. Em 19 de junho, Ciro voltou ao assunto. Escreveu que “PG confirmou a ida pra Londres” e perguntou: “Pedrinho filho do PG pode ir com a gente?”. Vorcaro confirmou novamente: “Obvio”.

“Estou indo no PG agora”

O laudo registra ainda episódios em que Ciro teria recorrido a Gonet em momentos de interesse de Vorcaro. Em 7 de abril de 2025, antes da viagem para Londres, durante uma conversa sobre uma reportagem relacionada à tentativa de operação do BRB com o Banco Master, Ciro pediu para falar com o banqueiro e escreveu “Estou indo no PG agora”.

Outra referência aparece em uma anotação feita por Vorcaro em 30 de outubro de 2025. O banqueiro registrou ter recebido, em caráter informal e confidencial, de integrantes do Banco Central (BC) a informação de que “G e os diretores” estariam sob pressão da PF e do MP para adotar uma medida contra ele.

Na mesma nota, Vorcaro escreveu que era “importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem”. Em anotação seguinte, disse ter “pessoas de dentro do Bacen” que “participaram das reuniões” e afirmou não poder expor essas fontes.

A PF avaliou que “Andrei” poderia ser Andrei Passos, então diretor-geral da PF, e que “Paulo” poderia ser Paulo Gonet. A investigação registra que a análise não foi exaustiva e que os policiais se limitaram aos elementos já encontrados no material apreendido.

“Assim, não foram realizados quaisquer atos de aprofundamento investigativo direcionados a magistrados ou membros do Ministério Público, tampouco diligências tipicamente policiais destinadas à apuração de condutas que, em tese, possam configurar ilícitos penais, limitando-se o presente trabalho à identificação e exposição objetiva dos elementos já existentes no material regularmente arrecadado e submetido à supervisão judicial”.

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